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Ernst Haas II (1921 – 1986)

1 Outubro, 2010

Apesar de nos ter deixado bastante cedo o seu legado fotográfico é impressionante: 250000 diapositivos e cerca de 100000 negativos a preto e branco. Sobre ele o fotógrafo profissional William Neil escreveu (Outdoor Photographer, Oct 2009, pag. 39): “I was fortunate to meet him… Besides being versatile,he was highly creative and innovative.To see Haas genius in full display check out his book, The Creation. “Este é sem dúvida o seu livro mais importante. No entanto, quem quiser ficar com uma ideia da sua evolução e da sua versatilidade fotográfica eu sugiro o livro “Ernst Haas,Color Photography”. É uma verdadeira retrospectiva   da carreira do fotógrafo com 153 imagens a cores abrangendo o período de 1950 a 1986,ou seja, todos os anos da sua vida profissional.

O que fez Ernst Haas de extraordinário para ficar tão conhecido logo no início dos anos 50 do século passado?  Ele e Eliot Porter foram dos primeiros a abandonar o preto e branco e a dedicarem-se à fotografia a cores.  Porter sempre fez fotografia clássica, especialmente de paisagens, com equipamentos de grande formato. Para ele o tripé foi sempre obrigatório. Ernst Haas foi, neste aspecto, o seu oposto. Adoptou o formato de 35 mm e era avesso ao uso do tripé. À rigidez de Porter opõe-se a flexibilidade de Haas.

A suas primeiras fotografias a cores são de Veneza, cidade que ele fotografou por várias vezes. De 1950 são bem conhecidas as suas fotografias de silhuetas de gôndolas e gondoleiros. Gôndolas e gondoleiros são marcas de Veneza. Mas porquê silhuetas? A película a cores disponível nessa época era a Kodachrome I de ASA 12. Uma película muito pouco sensível. Ao amanhecer ou ao entardecer o ambiente das gôndolas nos canais rodeados de edifícios é sombrio e impróprio para o uso da película a cores então existente. Admito que mesmo assim a terá usado mas a sua criatividade levou-o a procurar locais a céu aberto onde poderia obter imagens com contraste e cores mais saturadas. Se o fez ao amanhecer tinha na maioria das situações o lado do Sol como fundo. E, nestas circunstâncias, podemos afirmar que fotografava em contra-luz, ou seja, numa situação em que é usual dizer que os sensores da câmara são enganados e em que, tanto no modo automático como no manual, é necessário uma correcção que aumente o tempo de exposição. Mas Haas talvez não tivesse meios adequados para tirar partido dessa correcção. Por um lado a película de baixa sensibilidade, mesmo com a objectiva na sua máxima abertura, exigia exposições lentas. O problema agrava-se ao amanhecer e ao entardecer quando a luz ambiente é sempre fraca. Por outro lado,e é apenas uma suposição muito provável, não tinha tripé. Só lhe restava tentar as silhuetas. E foi o que fez. Com as gôndolas paradas os contornos ficaram bem definidos. Nesta minha imagem de duas árvores com copas diferentes do planalto mirandês também aconteceu uma situação idêntica.

Silhuetas

Caso o gondoleiro e a gôndola se movimentem durante o disparo as silhuetas ficam com os contornos suavizados,mal definidos.Se utilizarmos altas velocidades para congelar o movimento os objectos ficam nítidos.Haas,deliberadamente e/ou por dificuldades técnicas,fez o contrário.O efeito do “blur”(flou em francês ) é fascinante.

É conveniente referir que corria o ano de 1950 e a fotografia a cores dava os primeiros passos.

Dez anos mais tarde,em 1960, voltou a repetir a técnica mas escolheu uma gôndola mais vistosa.A proa está emoldurada com o que parece ser a figura de um cavalo-marinho.

Em 1954 e 1956 visitou Espanha e fotografou touradas. Nessa época os aspectos negativos desta actividade tinham pouca ou mesmo nenhuma expressão junto do público. Além disso Haas,poeta e sonhador,só via cor e movimento que ele pretendia exprimir nas suas fotografias substituindo a representação directa pela composição e pelo “blur”. Esta tendência abstracionista,  sem preocupação da nitidez,está na base da pouca importância que deu ao tripé durante a maior parte da sua carreira.
No caso das touradas também foi confrontado com cenas em zonas de sombra. Mas aqui, com a experiência já adquirida, ele sabia que para objectos com movimentos mais rápidos que o das gôndolas o disparo a baixas velocidades não era suficiente para obter os resultados pretendidos. Pela análise de muitas fotografias ele tinha notado que bastavam algumas partes do objecto estarem nítidas para que, na maioria dos casos,ele ficasse perfeitamente identificado. E isso conseguia-se movimentando a câmara no mesmo sentido do movimento do objecto. Ele até dizia que movimentava todo o corpo. A exploração desta técnica foi naquela época uma grande novidade e deu a Haas tamanha notoriedade que a revista Life o escolheu para realizar diversos foto-ensaios sobre desportos.

Para um maior detalhe devemos dizer que há vários tipos de movimento da câmara. Talvez o mais praticado seja o movimento rectilíneo conhecido por varrimento e que se usa,por exemplo,no caso de um cavalo a galope ou de um automóvel em movimento.

Cavaleiro Medieval

Outros,mais complexos,envolvem movimentos rectilíneos,circulares e até focais.

Procissão

Ao captar esta imagem aproveitei a palmeira para reduzir as altas luzes e ao mesmo tempo servir de moldura ao andor. A partir da década de 70 Haas começou a fotografar flores,actividade que manteve até ao fim da vida.Ele dizia que “as flores são como amigos silenciosos” e “photographing flowers is always a delight…”.Por isso vamos terminar oferecendo à sua memória duas amigas silenciosas.

A primeira é uma flor silvestre,característica da região mediterrânica com o nome vulgar de Pampilho-espinhoso (Pallenis spinosa). Pertence à família Asteraceae. Os nossos vizinhos chamam-lhe “Ojo de buey”.

Pampilho-espinhoso

A segunda é uma flor de jardim, um híbrido da família das liliáceas, conhecida entre os jardineiros e floristas por Coroa-imperial.

Coroa-imperial

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