Archive for Outubro, 2010

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Bragança I – Capital das Borboletas | BRAGANÇA I – Capital of Buterflies

13 Outubro, 2010

Esta Primavera, por razões familiares, visitei Bragança e várias zonas a Norte e a Sul da cidade. Conhecia-a muito mal porque sou avesso a desorientações e falta de sinalização adequada. A rede viária da cidade é um pouco complexa para um “paraquedista”e a estrada de circunvalação prolonga os acessos e só os facilita a quem disponha de uma bússola. Mas este problema é, infelizmente, comum a muitas cidades portuguesas. À parte isto gostei da cidade. Tem alma e personalidade. Tudo nasceu no castelo e à volta dele dentro das muralhas.

Castelo de Bragança

 

Depois a cidade expandiu-se e viveu muitos anos confinada ao que é a sua zona histórica. Hoje esta zona não é mais que uma pequena parcela da cidade.

Bragança – Zona Histórica

 

Em anos ainda não muito distantes as populações das aldeias transmontanas viviam, quase exclusivamente, da agricultura e da pastorícia. Este modo de vida era regido por normas e hábitos comunitários no aproveitamento dos recursos. Entre os vestígios dessa época podemos citar os coutos, os rebanhos do povo e os fornos comunitários. Recentemente saltaram para a ribalta as chegas de bois e os caretos de Podence,tradições de cariz popular que causaram muita curiosidade por todo o país.

Bragança esteve atenta ao fenómeno e imortalizou-as em duas obras arquitectónicas que podem ser vistas,e fotografadas,nas duas rotundas da saída Norte da cidade.

Luta de Bois

Coretos de Podence

Todos já ouvimos falar da capital nacional e das capitais geográficas e administrativas. Mas além destas têm-se afirmado outras com base nos produtos,no património construído e nas actividades características das regiões. E assim surgiram as capitais: do cavalo, do gótico, do cogumelo, da maçã, do móvel, etc., etc.

O ano de 2010 foi eleito o ano da Biodiversidade. É claro que em 2011 e nos anos seguintes não vamos esquecer o tema. Pelo contrário,seremos obrigados a tê-lo sempre presente e e a tomar medidas cada vez mais rigorosas. Está em causa a sobrevivência da Terra enquanto planeta habitado. Mas o homem gosta de pautar as suas principais intervenções com datas e,se possível, com rituais. É por isto que me associo às comemorações já efectuadas pela Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais e pela Bioeventos propondo à Câmara Municipal de Bragança que se assuma como Capital das Borboletas de Portugal.

Efectivamente, tanto a Norte – Parque Natural de Montesinho – como a Sul – Serra da Nogueira e envolventes – vivem espécies de borboletas raras e que,no nosso país,só encontramos nesta região. De acordo com Maravalhas*, e com o “Atlas de las mariposas diurnas de la Península Ibérica e islas Baleares”, 2004 , da Sociedad Entomológica Aragoneza, há em Portugal continental cerca de 137 espécies de borboletas diurnas. Na zona de Bragança podemos ver a voar para cima de 80% destas espécies e 7 ou 8 delas são exclusivas, isto é, não se encontram em mais nenhuma zona do território nacional. É evidente que estamos perante uma situação ímpar.

Estes pequenos seres, tanto as borboletas como outros insectos, são frágeis e muito sensíveis às alterações climáticas, à poluição e às perdas de habitat. Um incêndio, uma queimada mal controlada ou um herbicida sobre uma determinada planta podem destruir para sempre uma pequena população rara e muito localizada.

Por tudo isto é urgente que se tome consciência deste frágil mas valioso património natural e que se adoptem medidas no sentido da sua conservação. O diálogo e os esclarecimentos com os agricultores e com os responsáveis das zonas florestais acerca das práticas amigas do ambiente,e portanto da Biodiversidade,são de vital importância.

Para começar e alertar consciências seria conveniente que Bragança proclamasse a importância do tema assumindo publicamente a sua condição de Capital das Borboletas de Portugal.

Limenitis reducta


*Ernestino Maravalhas
em “As Borboletas de Portugal”
edição do autor, 2003.

( A 2ª parte será inteiramente preenchida com imagens captadas em Trás-os-Montes)

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Graciphoto VII

10 Outubro, 2010

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Ernst Haas II (1921 – 1986)

1 Outubro, 2010

Apesar de nos ter deixado bastante cedo o seu legado fotográfico é impressionante: 250000 diapositivos e cerca de 100000 negativos a preto e branco. Sobre ele o fotógrafo profissional William Neil escreveu (Outdoor Photographer, Oct 2009, pag. 39): “I was fortunate to meet him… Besides being versatile,he was highly creative and innovative.To see Haas genius in full display check out his book, The Creation. “Este é sem dúvida o seu livro mais importante. No entanto, quem quiser ficar com uma ideia da sua evolução e da sua versatilidade fotográfica eu sugiro o livro “Ernst Haas,Color Photography”. É uma verdadeira retrospectiva   da carreira do fotógrafo com 153 imagens a cores abrangendo o período de 1950 a 1986,ou seja, todos os anos da sua vida profissional.

O que fez Ernst Haas de extraordinário para ficar tão conhecido logo no início dos anos 50 do século passado?  Ele e Eliot Porter foram dos primeiros a abandonar o preto e branco e a dedicarem-se à fotografia a cores.  Porter sempre fez fotografia clássica, especialmente de paisagens, com equipamentos de grande formato. Para ele o tripé foi sempre obrigatório. Ernst Haas foi, neste aspecto, o seu oposto. Adoptou o formato de 35 mm e era avesso ao uso do tripé. À rigidez de Porter opõe-se a flexibilidade de Haas.

A suas primeiras fotografias a cores são de Veneza, cidade que ele fotografou por várias vezes. De 1950 são bem conhecidas as suas fotografias de silhuetas de gôndolas e gondoleiros. Gôndolas e gondoleiros são marcas de Veneza. Mas porquê silhuetas? A película a cores disponível nessa época era a Kodachrome I de ASA 12. Uma película muito pouco sensível. Ao amanhecer ou ao entardecer o ambiente das gôndolas nos canais rodeados de edifícios é sombrio e impróprio para o uso da película a cores então existente. Admito que mesmo assim a terá usado mas a sua criatividade levou-o a procurar locais a céu aberto onde poderia obter imagens com contraste e cores mais saturadas. Se o fez ao amanhecer tinha na maioria das situações o lado do Sol como fundo. E, nestas circunstâncias, podemos afirmar que fotografava em contra-luz, ou seja, numa situação em que é usual dizer que os sensores da câmara são enganados e em que, tanto no modo automático como no manual, é necessário uma correcção que aumente o tempo de exposição. Mas Haas talvez não tivesse meios adequados para tirar partido dessa correcção. Por um lado a película de baixa sensibilidade, mesmo com a objectiva na sua máxima abertura, exigia exposições lentas. O problema agrava-se ao amanhecer e ao entardecer quando a luz ambiente é sempre fraca. Por outro lado,e é apenas uma suposição muito provável, não tinha tripé. Só lhe restava tentar as silhuetas. E foi o que fez. Com as gôndolas paradas os contornos ficaram bem definidos. Nesta minha imagem de duas árvores com copas diferentes do planalto mirandês também aconteceu uma situação idêntica.

Silhuetas

Caso o gondoleiro e a gôndola se movimentem durante o disparo as silhuetas ficam com os contornos suavizados,mal definidos.Se utilizarmos altas velocidades para congelar o movimento os objectos ficam nítidos.Haas,deliberadamente e/ou por dificuldades técnicas,fez o contrário.O efeito do “blur”(flou em francês ) é fascinante.

É conveniente referir que corria o ano de 1950 e a fotografia a cores dava os primeiros passos.

Dez anos mais tarde,em 1960, voltou a repetir a técnica mas escolheu uma gôndola mais vistosa.A proa está emoldurada com o que parece ser a figura de um cavalo-marinho.

Em 1954 e 1956 visitou Espanha e fotografou touradas. Nessa época os aspectos negativos desta actividade tinham pouca ou mesmo nenhuma expressão junto do público. Além disso Haas,poeta e sonhador,só via cor e movimento que ele pretendia exprimir nas suas fotografias substituindo a representação directa pela composição e pelo “blur”. Esta tendência abstracionista,  sem preocupação da nitidez,está na base da pouca importância que deu ao tripé durante a maior parte da sua carreira.
No caso das touradas também foi confrontado com cenas em zonas de sombra. Mas aqui, com a experiência já adquirida, ele sabia que para objectos com movimentos mais rápidos que o das gôndolas o disparo a baixas velocidades não era suficiente para obter os resultados pretendidos. Pela análise de muitas fotografias ele tinha notado que bastavam algumas partes do objecto estarem nítidas para que, na maioria dos casos,ele ficasse perfeitamente identificado. E isso conseguia-se movimentando a câmara no mesmo sentido do movimento do objecto. Ele até dizia que movimentava todo o corpo. A exploração desta técnica foi naquela época uma grande novidade e deu a Haas tamanha notoriedade que a revista Life o escolheu para realizar diversos foto-ensaios sobre desportos.

Para um maior detalhe devemos dizer que há vários tipos de movimento da câmara. Talvez o mais praticado seja o movimento rectilíneo conhecido por varrimento e que se usa,por exemplo,no caso de um cavalo a galope ou de um automóvel em movimento.

Cavaleiro Medieval

Outros,mais complexos,envolvem movimentos rectilíneos,circulares e até focais.

Procissão

Ao captar esta imagem aproveitei a palmeira para reduzir as altas luzes e ao mesmo tempo servir de moldura ao andor. A partir da década de 70 Haas começou a fotografar flores,actividade que manteve até ao fim da vida.Ele dizia que “as flores são como amigos silenciosos” e “photographing flowers is always a delight…”.Por isso vamos terminar oferecendo à sua memória duas amigas silenciosas.

A primeira é uma flor silvestre,característica da região mediterrânica com o nome vulgar de Pampilho-espinhoso (Pallenis spinosa). Pertence à família Asteraceae. Os nossos vizinhos chamam-lhe “Ojo de buey”.

Pampilho-espinhoso

A segunda é uma flor de jardim, um híbrido da família das liliáceas, conhecida entre os jardineiros e floristas por Coroa-imperial.

Coroa-imperial

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